
Empresa troca sua frota de transporte de vinhaça para caminhões movidos ao gás renovável que ela mesma produz em usinas
Por Camila Souza Ramos — De São Paulo
A Cocal, que tem duas usinas no Estado de São Paulo e duas em Mato Grosso do Sul, fechou uma parceria para trocar toda sua frota de caminhões que transporta vinhaça (resíduo da produção de etanol) nas usinas no interior paulista por caminhões movidos a biometano.
A decisão da Cocal, uma associada da Copersucar, representa uma das maiores operações de substituição de frota de combustível fóssil por biometano do Brasil, e deve ajudar a empresa a reduzir suas emissões de gases estufa e aliviar o custo com o diesel, inflacionado pela guerra no Oriente Médio.
Serão 44 caminhões da Scania a biometano transportando vinhaça, que é justamente a matéria-prima da produção do gás renovável da Cocal, e que também é utilizada como adubo nos canaviais. Com a troca, a empresa vai deixar de consumir 19 milhões de litros de diesel ao longo de cinco anos, para utilizar no lugar o próprio biometano que produz nos biodigestores de suas usinas.
A operação foi acertada com a LOTS, empresa de gestão de frota e logística que atua com caminhões da Scania e outras marcas e é especializada em operações com menor pegada de emissões de gases de efeito estufa. A LOTS, que já faz a gestão de parte da frota de caminhões da Cocal, vai operar os 44 novos caminhões de transporte de vinhaça, que serão locados junto à Scania. O contrato prevê a prestação do serviço por cinco anos.
“Estamos usando biometano para devolver vinhaça para o campo, fechando a economia circular”, ressalta André Gustavo Alves da Silva, diretor comercial e de novos produtos da Cocal.
A decisão teve como objetivo reduzir as emissões de carbono do próprio processo de produção da empresa (escopo 1 de emissões do GHG Protocol), mas já deve ter um impacto econômico. A troca também fará a Cocal reduzir seu consumo de diesel – um dos principais custos de uma operação agroindustrial – e substituí-lo por um combustível produzido pela própria empresa.
A Cocal não revela quanto espera economizar com a medida. Mas, se o preço atual do diesel se mantiver ao longo de toda duração do contrato entre a empresa sucroalcooleira e a LOTS, a economia seria de mais de R$ 100 milhões no período.
Mas a transição não envolve apenas a troca de caminhões. A LOTS fez investimentos em torno de R$ 10 milhões para adaptar os postos de combustível da Cocal para garantir mais eficiência no abastecimento dos veículos. Uma das adaptações foi o investimento em chiller, para resfriar o gás e evitar que ele se expanda e ocupe um espaço muito grande nos cilindros dos caminhões.
Também foram feitas adaptações para reduzir o tempo de abastecimento. “Hoje conseguimos abastecer em 18 minutos, mas no começo eram 45 minutos”, conta o diretor da Cocal. Como os caminhões operam sem parar, nos três turnos e, no caso dos movidos a biometano, terão que abastecer uma vez ao dia, cada cinco minutos fazem diferença, ressalta Alves. Até a manutenção dos veículos é diferente.
“A transição energética vai muito além de comprar caminhão, colocar no posto e virar a chave. São vários fatores que precisam ser trabalhados em conjunto pelo fabricante, pelo operador do transporte e pelo cliente para que a transição seja viável”, afirma Pedro Silvestrini, vice-presidente de Estratégia e Novos Negócios da LOTS.
Segundo ele, os caminhões usados nessa operação não precisaram de nenhuma adaptação desde que saíram da fábrica – diferentemente daqueles que a Copersucar está usando para transportar açúcar das usinas do interior paulista até o Porto de Santos, que por conta da distância precisam de tanques extras.
A Cocal já vai começar a testar também o uso de caminhões a biometano para transportar cana-de-açúcar, mas a operação ainda será estudada, já que se trata de uma carga muito mais pesada. Mas Silvestrini tem confiança de que os modelos a biometano da Scania têm potência para substituir os motores a diesel com eficiência, diz.
Segundo o vice-presidente da LOTS, que fornece o serviço de gestão de frota para vários clientes dentro de suas operações e em rodovias, a guerra no Oriente Médio ainda não se refletiu diretamente em aumento da demanda por caminhões movidos a combustíveis alternativos – mas os clientes têm tratado do assunto, diz. “A procura não se intensificou, mas há uma preocupação a mais com a resiliência energética, de redução de volatilidade, que veio para a mesa”, acrescenta.
Fonte: Valor Econômico



